07/04/2018

A marcha da insanidade




O psicodrama ou psicotragicomédia em torno da prisão de Lula é menos importante, em si,  do que como um sinalizador de tempos ameaçadores. Há três anos assistimos o desmonte destrutivo –num certo sentido revolucionário--  do  establishment político brasileiro, fortemente dominado pela corrupção, institucionalizada. Era assim, a perder de vista, no passado  mas  nos anos petistas  chegou ao apogeu: o PT pretendeu  permanecer no governo, indefinidamente, a qualquer preço, unindo sua força popular e sindical com a cooptação dos tradicionais esquemões corruptos-clientelistas  da política brasileira e um "tesouro de guerra" avassalador capaz de bancar super campanhas como a de 2014. 

 Infelizmente, tenho poucas dúvidas em relação à responsabilidade política de Lula no “Petrolão” e outras armações desenhadas para consolidar o cofre da hegemonia amealhando  o que  combinado com o abuso da máquina pública, perigava inviabilizar, de forma duradoura, qualquer possibilidade de alternância política. Isso quando o país e sua economia já estavam cabalmente falidos. Resultou na vitória de Pirro da reeleição de Dilma e no subsequente "cavalo de pau" que ela operou na economia, mergulhando o país numa recessão cavalar.  

 Em última análise o grande responsável político foi o Lula, um grande líder popular, o maior deles, desde Getúlio Vargas e a  companheirada sedenta de continuar controlando seus  carguinhos e esquemões.  E a corda arrebentou... Num estado de direto, no entanto, a justiça não é simplesmente  o exercício de um castigo a qualquer preço. Nesse sentido, acredito, sinceramente,  que o julgamento de Lula pelo juiz Sérgio Moro, na primeira instância, depois agravado pela trinca radical de Porto Alegre,  tratando especificamente do episódio envolvendo apartamento de Guarujá,   foi uma aberração jurídica, no que pesem as loas cantadas pelos comentaristas e o deleite  da classe média "indignista". 

 Questiono aquela sentença por três motivos que nossa grande mídia não quer ver de jeito nenhum.  Primeiro:  Moro funcionou tipicamente como um  juiz de instrução. Trata-se de uma instituição interessante que não existe no Brasil. Lá onde existe,  o juiz de instrução chefia a investigação mas não profere sentença. Instrui, mas deixa para outro magistrado, menos envolvido, essa decisão. O Brasil deve muito a Moro mas apesar disso, dado seu envolvimento, projeção midiática e antecedentes de parti pris  --como aquela divulgação abusiva dos “grampos”,  as polêmica públicas e sua própria caraterização como herói do processo, imune a reparos e  controles--   não se assegurava aquela  imparcialidade necessária para ser ele a proferir a sentença. Foi uma justiça de exceção. Revolucionária.

 A segunda questão foi o fato desse processo ter  feito tábula rasa do princípio in dúbio pro reu numa postura que nos aproxima  de países autoritários: o réu é que tem de provar a inocência, sem margem a uma dúvida razoável.  Se o apartamento, vazio,  de Guarujá foi  pagamento de propina por um ato de oficio, corrupto, feito para beneficiar a empresa em seus contratos com a Petrobras,  tratou-se claramente de uma tentativa, não consumada,  de cometer tal delito porque nem Lula nem sua família de fato se apossaram ou usufruíram daquele bem. Também não ficou provada, sem margem a dúvida razoável,  uma contrapartida. Aceitou-se uma  acepção vaga de aquilo fazia fora parte de uma propina pelo processo de fraudes na Petrobras   genericamente falando embora na falta um ato de Lula, enquanto presidente da república,  que claramente a caracterizasse.  A tese do “domínio do fato” é de aplicação muito nebulosa e presta-se facilmente a colossais abusos. Entende-se sua aplicação em relação a quadrilhas mafiosas. Nos delitos vinculados à política há uma proliferação de zonas cinzentas. 

Não se levou em conta outra possibilidade: a de que aquele ato preparatório para um “agrado” tivesse sido, nesse caso, praticado por Leo Pinheiro por amizade. Era, de fato,  amigo de Lula devotava-lhe grande admiração, independente da corrupção na Petrobras. Em relação a qual a responsabilidade política de Lula é inquestionável mas faltam provas para além da delação premiada de pessoas em desespero para, nesse caso, considera-lo culpado de receber o apartamento como propina sem margem a dúvida razoável.  Na jurisprudência  brasileira esse tipo de ilação, por um pagamento que não se materializou,  jamais conduziria  a uma condenação de 13 anos de prisão agravada que foi  pelo TFR 4 num julgamento-espetáculo televisivo  de natureza a criar novos heróis midiáticos por atender o "clamor popular".   “Aquilo era no tempo da impunidade, agora é assim”, dirão,  muito embora para os embandeirados de verde anil, nas ruas,  continua  tudo "acabando em pizza”.  Fica a pergunta no ar: o que precisa acontecer para deixar de ser considerado “pizza”.  A execução dos corruptos --ou supostos corruptos--   com um tiro na nuca para depois da família pagar a bala, como na China? Vamos tomar um certo cuidado com aquilo que sonhamos. Pode, eventualmente,  acabar se realizando. 

 Lula ainda vai se julgado por frequentar o tal sítio, com lago e pedalinhos,  do qual, de fato,  usufruiu –assim como daquele sítio que o Fernando Henrique lhe emprestava, nos anos 80--  e de um outro apartamento em relação ao qual exibiu recibos de aluguel  de autenticidade contestada pelo MP. Lula será é o primeiro "grande homem" ao qual amigos ricos e admiradores proporcionam agrados e que acredita piamente que isso lhe é devido. Há muitos anos vivia assim. Depois de novas passagens por Moro e pelo TFR 4, em novos julgamentos-espetáculos,  vai terminar com condenações somando mais de 30 anos, o que, na sua idade, é  praticamente uma condenação a morrer na cadeia. Pode também ser rapidamente beneficiado por um habeas corpus desses tão odiados últimos moicanos da justiça liberal no STF. Mais brasileiros ficarão convencidos de que tudo "acabou em pizza" ainda que o fato de ter sido preso e impedido de se candidatar seja uma punição de vulto por sua responsabilidade política,  inquestionável.

O fato é que sua prisão e tem como efeito objetivo radicalizar o clima político do pais estimulando o pior de cada um dos lados que se confrontam de forma cada dia mais irracional.  Lembra aquela peça: ”Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. A verdade é que a sorte de Lula menos importante em comparação com outra mais abrangente que é a do Brasil. A fase de destruição punitiva foi fundamental para desmontar os esquemas de corrupção mas em nada garante que os hábitos, costumes, cultura e cotidiano da política brasileira se transformem do dia para a noite. 

 O lavajatismo corre aquele clássico risco das revoluções. Alimentado  cobertura de mídia fortemente emotiva e repetitiva que estimula toda noite o "indignismo" e a raiva de dezenas de milhões, a  sociedade torna-se adita a esse sentimento e enamorada da guilhotina. Como uma droga:   toda a frustração da crise econômica, da insegurança,  todos o problemas estruturais e difíceis do país passam a ser sublimados e compensados pela  lâmina sangrenta, implacável, catártica. As pessoas tomam gosto pela coisa num prazer punitivo compensador na degola --por enquanto figurada-- dos culpados, dos acusados e dos eventuais bodes expiatórios. Tudo velho como a história, já aconteceu trocentas veres em inúmeros países e momentos históricos mas nunca trouxe nada de bom, de fato, pelo menos a curto e médio prazo. É sofrimento sublimado em glória:  pode não have solução alguma, avanço zero na qualidade da representação ou da governança mas tem o consolo de  mais gente atrás das grades. Cria-se uma máquina punitiva que precisará se alimentar sempre mais e mais. Novos polos de poder  se sentem ungidos pela missão de "limpar" o país muito embora faltem-lhes, objetivamente,  os meios para produzir a melhor representação e a melhor governança que lhe faltam dolorosamente ao Brasil. Isso, até segunda ordem, depende de uma melhor qualidade da representação eleita.  

 A destruição punitiva não conduzirá a um país melhor se não for seguida de uma reconstrução em novas bases, um establishment político menos corrupto, fisiológico e clientelista onde haja mais participação, diálogo e tolerância. Isso  inclui uma confiança e tolerância maior entre brasileiros, --ambas hoje pela hora da morte--  e pelo estabelecimento de uma autoridade acatada socialmente.  O problema é que  estamos rumando em alta velocidade no caminho oposto, aquele da entropia.

 Uma democracia precisa de uma esquerda democrática e de uma direta civilizada. Ambas têm que fazer parte de um respeitoso jogo  de aceitação da diferença e de alternância. O que temos aqui é uma esquerda regressiva que no seu ressentimento namora o chavismo e não consegue ter a menor dimensão autocrítica da sua responsabilidade em tudo que ocorreu. Do outro lado,  uma direta hidrófoba, truculenta, raivosa que  busca bodes expiatórios e teorias de conspiração. Seu eventual ponto de chegada é o “homem forte”: um Erdogan, Duterte, Sisi, Orban, Kaczinski,  Putin,  verde anil.

  Uma resultante mais imediata é  o caos, a  síndrome dos estados falidos da qual o Rio é um prenúncio.  Ninguém controla mais nada e ninguém confia mais em ninguém. Multiplicam-se  ditaduras locais num momento de ouro para o crime organizado. Bandidos a sério mesmo, daqueles que matam a rodo,  não esses meliantes políticos, pilantras e frouxos.  É sua hora de acumular poder. 

Ainda há tempo de se restabelecer um mínimo de sensatez e reduzir essa temperatura escaldante, essa histeria, de parte a parte.  Senão vamos temer um amanhã pior.

28/03/2018

Segurança: fala sério!



Fala sério, diria o imortal Bussunda. Começou a “desancagem” da grande mídia em relação à intervenção.  Além da grande provocação da execução de Marielle, sem dúvida imenso fator de desgaste --“golpe de mestre” do mal--  temos nosso jornalismo hiper imediatista e seus palpiteiros de sempre. 

 Então alguém achava, a sério,  que em um mês iam cair os índices de violência num estado falido, com total crise de autoridade, criminalidade pulverizada e policias criminalizadas, desmotivadas e desmoralizadas?  

Qual o santo milagreiro capaz de fazer isso???

 Lidamos com três problemas distintos: 1 – insegurança cidadã  (assaltos, latrocínios, e balas perdidas) 2 – Controle territorial do crime organizado (facções do tráfico e  mal chamadas “milícias”) 3 – Colapso da autoridade e das polícias. Cada um desses fenômenos, embora profundamente interligados,  tem uma dinâmica distinta.  

 O pior para a população, no imediato, é  o primeiro resultado primordialmente do crime desorganizado, periférico, caótico cujo controle depende de um policiamento ostensivo, preventivo com ocupação dos bairros, a pé e –segredo de polichinelo--  de uma mãozinha do crime organizado: “aqui na minha área, não!”. 

 Houve um momento onde quase acabou o controle territorial ostensivo das facções sobre boa parte das favelas. Hoje não é mais o caso. A curto prazo, pelo menos e enquanto a área de segurança não for totalmente reorganizada, ele vai subsistir. O que dá para conseguir, a curto prazo, é uma trégua. No sentindo de cessarem ações expansionistas, as guerras por territórios –essas devem ser sufocadas com todo poder de fogo disponível, de forma exemplar-- , deles recolherem seu armamento de guerra deixando de ostenta-lo. 

 Já aconteceu dezenas de vezes no passado: é sempre algo tácito e por razões óbvias não assumido. Em geral não dura muito tempo e tem o lado negativo de permitir a capitalização dos bandos e a regularidade do “arreglo” sem o qual não há esse tipo de trégua.

A outra alternativa é uma ofensiva geral com enfrentamento sistemático desse controle territorial. Certamente não direi “acabar com o tráfico” porque isso é pura fantasia, nunca vai acontecer a não ser com a legalização, quando a droga passar para o âmbito da saúde pública, puder ser comprada na drogaria com aquela tarja de maço de cigarro: “você esta f... com sua saúde”. A ofensiva geral com BOPE, fuzileiros navais, forças especiais e o esquibao parece atraente mas irá produzir certamente vítimas inocentes nossa sociedade não tem estômago para tanto. A imprensa será a primeira a se indignar deslegitimando a ação.  Ela poderá ser feita num outro contexto com as polícias reorganizadas e uma ação conjunta com outras esferas de governo que funcionem quando for restabelecida uma autoridade pública minimamente respeitada. Não é o caso, atualmente. 

 Colapso da autoridade de governo e das polícias. Eleger um governador que não seja um ladrão, um safado, um cretino ou um ideólogo nefelibata já seria um bom começo (quem, meu Deus???). Reforma das polícias. Policias em tempo integral , bem pagas e bem treinadas, como explico no blog anterior.


 Nada disso acontece de hoje para amanhã, leva anos. O primeiro ponto, do alívio imediato, pode vir mais rápido mas provavelmente será efêmero. Analgésico. O bom em velho Melhoral.  Tinha lá sua serventia de momento.

No mais, chega de histeria!

21/03/2018

Fim da polícia de "bico"


O fato dos nosso policiais militares trabalharem duas vezes por semana e civis, uma,  é antigo e condiciona estruturalmente a qualidade de seu trabalho ao torna-lo intermitente, pouco focado, com enquadramento disciplinar difícil e pouca oportunidade para um treinamento e adestramento permanente. O "bico" na verdade acaba sendo a atividade policial. Cria uma dicotomia acentuada entre o contingente nominal e o real, todos os dias na rua para proteger a sociedade e investigar crimes. Obedece a uma cultura arraigada e corresponde a uma tipo de gasto público insuficiente e ineficaz. Seu resultado é uma policia de má qualidade, altamente vulnerável não apenas à corrupção como à criminalização com uma "banda podre" praticamente incontrolável. 

É positivo a intervenção na segurança do Rio estar refletindo a respeito da chamada “escala de serviço” de 24 horas de plantão por 48 ou 72 de (suposta) folga, na PM e na polícia civil, respectivamente. Embora profundamente enraizada na cultura funcional vigente trata-se de uma aberração. Enquanto ela existir nunca teremos polícias de qualidade. 

 Seu trabalho é descontínuo, sem uma rotina que favoreça  melhor enquadramento, adestramento e disciplina. Propicia não o descanso mas uma  segunda atividade remunerada que tende se tornar predominante em ganho econômico e investimento de energia. Pode não ser compatível com a segurança pública e, objetivamente,  nutrir-se da precariedade desta. No caso da chamada  “banda podre”, o tempo de folga é dedicado às articulações criminosas.  Mais de 70% das mortes de policiais ocorram em dias de folga. Não é por acaso.

 As vantagens de um regime de dedicação exclusiva saltam aos olhos: um aumento imediato de contingente, um controle maior da instituição sobre o cotidiano de seus quadros, possibilidade de adestramento e formação permanente, continuidade no trabalho investigatório, mais especialização.  

 Gosto de lembrar o caso de Bogotá, onde a criminalidade violenta foi reduzida em 50% em uma década. Bogotá, com sete milhões de habitantes, é  maior que o Rio. A Polícia Nacional dispõe de 16 mil homens com dedicação exclusiva.  Ficam aquartelados. Ocupam efetivamente o território da cidade: estão em toda parte patrulhando a pé, em grupos de três, com fuzil metralhadora e um bom sistema de comunicação. A viatura é utilizada como apoio.   Não existe controle territorial de comunidades por bandidos senhores-de-guerra.

No estado do Rio, quantos dos 45 mil policias militares estão efetivamente nas ruas todos os dias? Além das folgas é preciso contar o número assustador de policiais de licença, cedidos para outros órgãos e instituições, etc. O efetivo disponível no dia a dia é absurdamente insuficiente e o patrulhamento só em viatura deficiente na prevenção. Ela passa com seu guardinha de olho grudado no smart phone combinando o serviço que vai fazer nos dois dias seguintes no supermercado e na proteção do rapaz que vai  ao banco pegar o pagamento da turma daquela obra. Acaba  de chegar o WhatsApp do taxista que quer lhe vender a autonomia. E a viatura passa. Esse guardinha é do bem. 

 Na outra viatura outro PM está esperando a mensagem dos "manos" marcando para o dia seguinte da folga o encontro no morro pra levar aquela Uzi. Estão preparando um bote na outra facção e aí vai mudar o arreglo. Ou quem sabe vai trabalhar com o outro colega da "milícia" que está controlando o gás e os motoboys. Ai vai ter que passar o cerol nos manos. Dilemas mas novas oportunidades...

  É uma vida dupla. Segunda-feira temos o coronel comandante do batalhão e o soldado. Na terça as pessoas são as mesmas mas os personagens não mais, é o empresário da segurança privada e seu empregado informal. Um dia comandante/soldado, no outro patrão/empregado. A segurança privada compensa a insegurança mas necessita para existir da má qualidade da segurança pública. 

 Uma polícia de qualidade dificilmente será possível sem dedicação exclusiva com o policial enquadrado numa rotina e a corporação controlando o essencial do seu tempo.  Fora de operação, o policial fica ocupado pelo adestramento permanente,  treinamento,  preparo físico com tempo de folga condizente com o do serviço público, levando em conta no horário certas excepcionalidades da atuação policial. 

A instituição de uma verdadeira  dedicação exclusiva tem dois grandes óbices:  o orçamentário:  terão que ser pagos realmente bons salários e o cultural-corporatista: a escala de serviço é hoje hábito muito arraigado, um modo de vida. 

No entanto, se a sociedade exige uma boa polícia precisa entender que ela custa caro. O governo federal, este ou o próximo,  terá que enfrentar a questão de como financia-la decentemente e eficientemente. Quanto à mudança  cultural/corporativa nas policias,  poderia instituir-se uma fase de transição com a coexistência dos dois regimes de serviço mas um nítido favorecimento, em termos salariais e de prestígio  para os que optarem pela dedicação exclusiva: promoções, cursos, financiamento de casa própria, etc.  Seria também uma ocasião para filtrar o trigo do joio e expurgar as corporações via corregedorias realmente ativas. Vai haver uma resistencia enorme daqueles oficiais que nas suas  48 ou 72 horas de "descanso" são donos de empresas de segurança privadas. A transição dar-lhe-a tempo para optarem entre a corporação ou o business. Não são compatíveis no serviço ativo.

 Evidentemente o estado do Rio não teria --muito menos agora--  como financiar sozinho  algo assim. Já examinei essa questão, anos atrás,  com o falecido André Urani e o Leandro Piquet, nossa ideia, na época,  era uma loteria para bancar um fundo federal de complementação salarial para os policiais, de dedicação exclusiva, nos moldes daquele da educação. 

 Mexer com isso é muito difícil mas aí está o nó górdio a ser cortado para que possa existir policias de qualidade com  disciplina, enquadramento  e eficiência. Nas quais a hierarquia tem controle real sobre o efetivo. É também o primeiro passo para termos polícias respeitadoras do cidadão e respeitadas.

17/03/2018

Marielle e a grande provocação


Passados dois dias, os contornos do assassinado de Marielle Franco começam a se delinear melhor. Em relação as hipóteses que levantei, no no blog anterior,  algumas  perdem força, outras ganham tração.  Debilita-se aquela que remete ao episódio da juíza Patricia Acioly, a da animosidade individualizada. Marielle, embora ativa na denúncia de situações envolvendo a PM em favelas e, recentemente,  o Batalhão de Acari, não individualizava suas denuncias nem elas haviam produzido consequências como a da prisão algum PM ou miliciano que pudesse ter resultado em retaliação.   Ela não entretinha animosidades nem sofria ameaças específicas.

  A outra possibilidade era a de um raro crime ideológico partindo de alguma flamante organização fascista e racista formada no bojo do atual emergência da extrema direita sobretudo nas redes sociais. Tipo  Aurora Dourada, na Grécia. Um crime dessa origem, no entanto,  teria sido reivindicado o que não foi o caso.

 A hipótese que para mim passa a ser a mais provável é a do crime instrumental: uma provocação, com objetivos políticos bem definidos –desgastar a intervenção federal na segurança fluminense--  cuja escolha de alvo obviamente revela como pano de fundo componentes racistas, ideológicos e de ressentimento social. O alvo escolhido foi uma negra, bonita, bissexual, pobre, favelada e que transcendeu sua condição social e tornou-se pessoa importante passando a utilizar dessa condição para ousar criticar policiais. 

 Qualquer pessoa que já tenha conversado com um certo tipo de PM conhece esse  sentimento de  ódio da favela e de seus moradores, indiscriminadamente. Para esse tipo de policial ela era “defensora de bandidos”, como tuita uma desembargadora  que aparece na coluna do Anselmo Goes acusando-a de ligações com o Comando Vermelho. 

 Ligações? Qualquer liderança política ou gestor público que atue numa favela controlada territorialmente pelo tráfico acaba tendo algum contato com aqueles jovens armados. Depois, quando aparecem mortos no valão, pode protestar e defender aquilo que parte da sociedade chama de “os direitos humanos dos bandidos” em contraposição com os das pessoas de bem, como se  direitos elementares  devidos a qualquer ser humano pudessem ser subdivididos por merecimento. Não entendem que coibir a tortura e a execução sumária, garantir o devido processo legal protege em primeiro lugar os inocentes.

   É bem verdade que há um tipo de discurso de esquerda que tende a colocar a bandidagem  como “vítima da sociedade”. O Hélio Oiticica criou aquela imagem, na minha opinião muito perniciosa, do “seja marginal, seja herói” e flertou com a noção do "bandido social", algo que não existe. Para mim,  o narcovarejo é uma ditadura militar, local, que se impõe a uma comunidade. É uma força essencialmente opressora. Do mal. 

 No dia a dia das relações sociais, numa favela, tudo isso é muito complicado sobretudo quando muitos inocentes caem vítimas do gatilho fácil num contexto de promiscuidade do tráfico com os  policiais do “arreglo”. A morte é parte da equação comercial. O traficante é morto porque não pagou, o policial é morto porque está querendo favorecer a facção rival. Inocentes são confundidos e mortos. Balas perdidas matam outros inocentes. Nesse contexto, lideranças como Marielle se posicionam sistematicamente contra essas mortes, muitas delas execuções. Posso discordar de algumas de suas avaliações políticas  mas ela tinha esse direito que constitui um contrapeso fundamental numa democracia.

 Voltando a sua execução, com um lote de balas 9 mm desviado da Polícia Federal e usado em crimes de extermínio com envolvimento policial, noutras cidades. Há uma forte probabilidade dela ter sido cometida por policiais ou "milicianos" a eles associados que alimentavam esse sentimento de ódio contra aquela “favelada” que virou líder política, parlamentar, em suma,  “doutora”.

  Mas o motivo principal não deve ter sido simplesmente esse ódio mas um cálculo instrumental. Aparenta ser uma provocação contra a intervenção federal. Pode ter  relação com o desbaratamento, dias antes, de uma dessas mal chamadas “milícias” e com o receio de que a intervenção, com base na inteligência militar e da Polícia Federal,  vá promover devassas na chamada “banda podre” das policias e na turma do arreglo que hoje reinam soberanas. Cada barão no seu baronato.  

 Nesse caso, os assassinos parecem demostrar um sentido tático e uma esperteza política arrepiantes.  Ao escolherem seu alvo sabem que  repercussão na grande mídia dessa morte, magnificaria o posicionamento de oposição à intervenção. A partir daí, desmoraliza-la fica mais fácil. O tratamento emotivo, apelativo da grande mídia ajuda. Pavlovianamente,  a coisa vira um “fora Temer”,  como se Marielle  tivesse sido vítima da própria intervenção federal. Ouve-se até de petistas que  "os assassinos foram os mesmos que promoveram o impeachment da Dilma”. 

  Ao tomar esse caminho a companheirada corre o risco de estilhaçar a grande unidade que se criou no momento seguinte ao crime. A maioria dos cariocas embora desconfiada, alerta, não é contrária, nesse momento,  à intervenção –ruim com ela, pior, sem--  e torce para que   dê certo de algum modoJá os “anti-sistema”,  reconfortados no seu radicalismo pelo martírio,  enveredam por um discurso que pulveriza, tribaliza, desune e, sobretudo, tende a minar qualquer autoridade. 

 A completa desmoralização e esvaziamento da autoridade está no fulcro do nosso drama. A cleptocracia cabralina e o alienismo funcional do atual prefeito deixaram o Rio  acéfalo. O governo federal é mal visto no contexto da Lava Jato e do Fora Temer. A intervenção comandada por oficiais sem rabo preso como o arreglo e os interesses corporativos que minam nossas polícias,   até agora,  teve um comportamento sensato. Merece  o beneficio da dúvida e o respeito pela sua autoridade. Em matéria de segurança é o que temos, no momento. 

  Maquivelicamente, os assassinos contrapõem a esse relativo apoio da população a minoria ativista, emotiva,  eletrocutada pelo crime. A grande mídia cai na armadilha e multiplica essa emoção. Isso por sua vez provoca a reação conservadora de quem acredita que muitas outras vítimas da violência --inclusive policiais-- estão sendo "esquecidos". Passa a  reinar ainda mais a divisão, a tribalização e a entropia numa sociedade sem rumo ou esperança. Caldo de cultura para as piores saídas políticas, só olhar em volta pelo mundo afora.


 O interesse das “milícias”, do arreglo, das facções do tráfico, da corrução policial é uma só, convergente e coerente:  reduzir qualquer autoridade ao “valor Pezão”, ou seja a zero. Assim fica garantida sua autoridade total onde lhes interessa: os territórios nos quais exercem sua ditadura armada,  localizada: a  favela, o conjunto habitacional, o bairro, em toda uma área da cidade, reservas de mercado a serem exploradas e/ou “tributadas” de alguma forma. 

Isso tem nome: "a sídrome dos estados falidos". É a “somalização” do Rio de Janeiro. Esse foi com grande probabilidade o objetivo estratégico dos assassinos de Marielle Franco. O móvel do crime, o motivo da provocação. Vamos cair nessa?